Quando a tecnologia se fez minha inimiga


(Foto meramente ilustrativa / Linn da Quebrada)

Lá estava ela ao meu lado. Uma pequena caixa que envia e recebe milhões de informações. Não sei como tudo funciona ao certo. Meus ancestrais com certeza diriam que é mágica. Não é algo que funciona com um estalar de dedos, apesar de, apenas com um toque poder ter o mundo na palma da mão. Estou aqui, mas também do outro lado do mapa. É tão instantâneo como acordar e abrir os olhos. Se bem que mágico não seria um termo tão inapropriado. Não seria, se a esta já não tivessem dado o nome de tecnologia.

Ela me acompanha aonde quer que eu vá, minha vida é movida por ela. É tão bom poder tê-la ao meu alcance quando mais preciso. A tecnologia, em sua magnificência, como não amar? Difusão de conhecimento e informação, proporciona oportunidades para artistas mostrarem seus trabalhos, conecta pessoas e imensa lista de vantagens que dificilmente poderia aqui listar. Mas não se engane. Ela pode ser uma cobra em pele de cordeiro.

E foi numa tarde de domingo que a tecnologia se fez inimiga.

Minha fiel e inseparável amiga, estava ao meu lado, em um de seus formatos mais compactos, o celular. Ele, que me conhece tão bem e leva consigo informações que talvez nem me recordo.  Sempre atencioso e gentil, me informou que algo havia sido enviado para mim. Olho para a tela e vejo que era uma mensagem um aplicativo de relacionamento que eu, comumente, fazia uso. Me deixo levar pela vontade de acabar com o tédio e conversar com alguém.

E naquele instante nada mais parecia fazer sentido. Fui enganado. Não era uma mensagem. Era a tecnologia me atacando, dentro da minha própria casa. Como aquilo poderia ser possível? Logo ela, de quem sempre fiz bom uso. Meu corpo congelou e foi tomado por nojo e temor. Palavras de ódio, insultando quem eu sou, minha cor, o meu cabelo. Nada fazia sentido. O que eu tinha feito de errado para merecer aquilo?

Artificial e inteligente, mas como ela poderia me atacar de tal maneira? Foi então que me lembrei de que ela tinha acesso às minhas informações e fotos. Não só ela, mas outras pessoas que também fazem uso do aplicativo.

E foi aí que ela se fez inimiga. Aliada a outro alguém, que não fazia seu uso da mesma maneira que eu. Um ser que, mesmo de longe, pôde entrar na minha vida e causar-me um pequeno desconforto.  Sem conhecer de fato quem eu sou, utilizou-se de aspectos que, aos seus olhos, não são apropriados para mim. Na verdade, para ele. A minha cor preta, o meu cabelo vermelho, o meu jeito de vestir e meu jeito nada másculo. Para ele, se unir à tecnologia para tentar me atacar, pareceu a maneira mais fácil de mostrar que não é alguém corajoso. O ódio que fere e mata quem não se encaixa no filtro padrão chegou a mim de uma maneira tão sutil, mas que abalou meu emocional.

Quanto a mim, seria mais fácil baixar a cabeça e me retirar dali. Esquecer que a tecnologia sempre foi boa comigo e me proporcionou momentos e oportunidades que jamais posso esquecer. Sem ela, possivelmente não teria coragem de mostrar meu cabelo colorido ao mundo e sair na rua tendo orgulho de quem sou.

Gustavo Dias

blogger, designer, escritor...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Instagram