Querida pessoa branca, a série "cara gente branca" não é sobre você


Cara gente branca, aqui vai uma série de motivos, pelos quais, você não deve se sentir ofendido com a série “Cara gente branca”. Até porque, ela não é sobre você, e sim sobre meus irmãos e irmãs negrxs.

Algumas pessoas já perceberam que Cara gente branca, não teve a mesma repercussão que 13 reasons why. Só daí, percebemos o quanto as pessoas se comovem e preocupam mais com determinados assuntos, e ignoram outros, tão importante quanto. Dessa mesma maneira os meios de comunicação. Mas o meu objetivo aqui é outro.



Há algumas semanas, a Netflix lançou uma série chamada “Dear white people”, Cara gente branca, aqui no Brasil. O que causou grande revolta nos EUA, onde usuários ameaçaram e cancelaram suas assinaturas na plataforma. Por que será, que uma série com protagonistas negros e, aparentemente, um título que dá a intenção de falar mal de pessoas brancas causa tanto incômodo? Se fosse um protagonista branco, com negro em segundo plano, estaria tudo ok?

Apesar da série começar com um estopim, causado pelo uso de “black face” em uma festa, a narrativa tem como carro de frente, os membros fraternidade negra da faculdade Winchester, e gira em torno de dilemas vividos por esses estudantes e maneira como eles lidam com as questões sobre racismo e preconceito. 


Pessoas negras tão plurais e distintas



A realidade é que nosso mundo é composto por pessoas negras também, beleza? Elas também ocupam espaços e tem voz. Deixe que elas falem. Pessoas negras tão plurais e distintas, com vivências e experiências diferentes. E é isto que Cara gente branca retrata.

Cada indivíduo é tão único, com particularidades. A partir disso, mostra como se dão as relações na comunidade negra, apresenta o negro em sua pluralidade. Pluralidade esta, que vai desde o tom de pele (colorismo) até as ideologias. Que a  negritude não é vivida de uma só maneira. São as mais diversas formas de experiência e postura de combate ao racismo. Logo,  as nossas posições no movimento negro não são as mesmas.


Humanização da existência negra



São por estas, e outras questões, que Cara gente branca não julga as pessoas brancas ou lhes aponta o dedo para suas atitudes racistas, ainda que fale sobre isso de uma maneira sarcástica. Ao meu ver, a série tem o objetivo de humanização do ser negro. Desmistifica que todos nós somos iguais e que estamos sempre na defensiva.

Uma abordagem sobre a personagem Coco, que me chamou muita atenção, é a maneira como a apresentaram e, aos poucos, foram desvendando o porque dela agir e ter tais atitudes diante o movimento. O que exemplifica de maneira clara, como um indivíduo tem sua identidade construída através de suas vivências, experiências e pelo o meio que o cerca. Falei sobre isto no meu texto “meu processo de empoderamento”, sobre a falta de representatividade e que, após muito tempo, fui reconhecendo meus traços e me aceitei como pessoa negra.


“ser despreocupado e negro, é um ato de revolução.”


Os personagens em suas diversas nuances, dotados de emoções e expectativas, se mostram, muitas vezes, divergentes em suas posições dentro do movimento negro. Existem aqueles que lutam veemente por suas ideologias, estão sempre na linha de frente e parecem nunca se cansar. Assim bem como, aqueles que são mais na sua,  não possuem voz ativa, os que na série dizem ser os que estão dormindo. Mas, a maneira como isso é trabalhada na série, nos diz que “ser despreocupado e negro, é um ato de revolução.” E acredito eu que sim, pois, o simples fato de nós existirmos, já é uma luta, é resistir.

Além dos assuntos relatados acima, a série aborda uma série de temas, que precisam ser debatidos dia após dia, que parecem irrelevantes, mas fazem parte da vivência do negro. Seguem algumas:

  • Colorismo
  • Coação policial
  • Pluralidade negra
  • Hipersexualização
  • Homossexualidade negra
  • Genocídio
  • Solidão da mulher negra
  • Relacionamento interracial
  • Masculinidade negra


Nós, negros, somos humanos, temos nossas dores e ainda precisamos lutar para conquistarmos nosso espaço no meio em que vivemos. O racismo é real, e está velado em nossa sociedade. Pequenos atos e dizeres, podem sim, nos atingir. Apropriação cultural faz com que nossa história perca seu valor. Piadas que façam chacota com nossa raça faz parecer que não somos nada. Mas falar sobre o que incomoda os negros, incomoda os brancos. Querida pessoa branca, não assista série como se fosse uma ofensa a você, até porque ela não é. E querida pessoa negra, não se cale, mostre quem você é e que você é um ser humano que merece seu lugar na sociedade.

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