A solidão da bicha preta




Olá querido (a) leitor (a). Sou eu, Devonne, de volta com mais um texto que reflete um pouco sobre a realidade de algumas pessoas.Como pode ter reparado, o título é bastante claro (diga-se de passagem, obscuro), ainda que não seja visível para as pessoas ao nosso redor. 


Um leitor, que aqui irei identificá-lo como F, me enviou um relato acompanhado de um pedido, para que escrevesse um texto abordando este tema.
 
Em sua mensagem, F me contou que ao ir em uma festa LGBTTQ+, pode perceber certo desconforto ao se lembrar do trecho: “ser inteligente, gostar de estudar e ter planos para o meu futuro não era o suficiente, não para outros gays, não para ser parceiro de alguém... “, presente em meu texto “Ser negro e gay: dois pesos diferentes” e como aquilo o fez refletir sobre, especificamente, como caras gays se relacionam ou simplesmente escolhem seus casos de uma noite de balada. 

Preciso afunilar mais a situação para chegar a problemática em questão: quanto um cara negro gay, precisa provar que é suficiente para outro cara? A verdade é que ele não precisa provar nada. Mas, se tratando de uma sociedade baseada em 'esse é meu gosto', esse cara estará sempre a prova de ser bom o bastante ou não para as pessoas.

Me lembro das diversas vezes que, ao ir para uma boate ou festa com os meus amigos, eu era a última ou, até mesmo, nem era a opção de alguém. Isso tudo porque eu não fazia “o tipo deles”. Por estas e outras situações, sempre passava horas me olhando no espelho, perguntando se havia algo de errado em mim. 


 “Sou rejeitado pelo brancos por ser negro, pelos negros por ser gay e pelos gays por ser afeminado” - RuPaul.


Vivemos num país que, mesmo miscigenado, sempre esteve preso a um estereotipo da beleza euro centrada, ditada como um padrão ideal de ser, assim bem como, de busca por um parceiro que assim o seja. É por isso, meu caro leitor, que quando digo: o nosso “gosto pessoal” é construção social, não deixo de reafirmar que baseamos nossos desejos naquilo que nos é apresentado diariamente, seja nas revistas, televisão, nos filmes e até na internet.

"É, ela não tem do que reclamar, afinal, está rodeada de pessoas - mas a realidade é que ela é a menos desejada."

 

Ah, a bicha preta efeminada. Caricata, engraçada e querida por todos – quando está fazendo uma piada e sendo o centro das atenções. É, ela não tem do que reclamar, afinal, está rodeada de pessoas - mas a realidade é que ela é a menos desejada. Não é de hoje que essa zombação mascarada de brincadeira, está presente a vida do cara negro gay. Nos anos 90, o Brasil já ria da figura da bicha preta, interpretada pelo Jorge Lafond, no programa A Praça é Nossa.

Quem não se lembra da querida Layla Dominique? Que Deus a tenha. Preta, feia e engraçada, se tornou um viral nacional, vítima da zombaria na internet. Será que são necessários mais exemplos de como o gay negro efeminado é visto pela sociedade?

Mas ah, deixa de besteira, já fiquei com gays negros. Hipoteticamente falando, quais os motivos já te levaram a ficar com um gay negro? Pensou? Agora, como poderiam os gays negro serem desprezados? Afinal, quem não gosta de um negão? 

É aí que você se engana. O nosso clamor como negros e gays, vai muito além da objetificação do corpo. 

 



Gays negros são em sua grande maioria os mais pobres, os mais caricatos e os menos desejados. Sem contar quando são gordos ou magros demais e principalmente os afeminados! Quantos de nós não fomos chamados de Vera Verão, Bicha Louca e Neguinha? – Tudo em tom de deboche.

Esses são, sem dúvida, os que mais sofrem com a solidão e a desvalorização presente em nossa sociedade. Ora por outros grupos étnicos ou sociais, outrora por seus irmãos negros. Por não ser másculo o suficiente, a sua dor enquanto negro e gay, é praticamente silenciada pelo movimento, gerando uma grande falta de empatia. 

NINGUÉM QUER A BICHA PRETA! 


A verdade que choca e causa espanto é essa: ninguém quer a bicha preta. A menos que seja para uma transa casual, no sigilo. Não é mimimi ou vitimismo, é a pura verdade. Nenhum cara quer ser visto com outro negro por aí, apresentar para os amigos ou, até mesmo, para a família. Não importa o quanto ele mostre que é inteligente, companheiro e até bonito, será sempre a segunda opção, simplesmente por não ser padrão

Desde de criança, precisamos lutar contra nossos trejeitos, pois, se não tivermos um jeito mais masculino, facilmente viramos alvo de piadas. Nós bichas pretas, lutamos contra racismo, homofobia, hipersexualização e uma série de preconceitos pessoais, que acaba por destruir nossa autoestima. 

Durante a nossa construção como seres integrantes dessa sociedade, passamos parte de nossas vidas cercados de traumas, como se fossemos lixo, um nada. Ainda assim, precisamos buscar aquela força escondida, quase aniquilada por todas as opressões, para continuar vivendo e ter um mínimo de autoestima para sair sem ter medo de sermos nós mesmos. Se sentir assim é muito frustrante, triste e doloroso.
 

Por sorte, alguns de nós amadurecemos e percebemos o quanto estamos presos em um sistema e tentamos alertar nossos irmãos – e toda a sociedade; mas só ouve quem quer. Dia após dia, o silêncio tem sido quebrado e, felizmente, pessoas como Liniker, Rico Dalasam e Mc Linn, tem ajudado a dar voz ao movimento, levando o empoderamento para o mundo através da arte, debates e redes sociais. 

O empoderamento negro é uma luta diária. Não é puro narcisismo. É resistir, é afrontar, é cultivar um amor que nunca foi lhe oferecido. A solidão da bicha preta existe e perdura por décadas. Precisamos da empatia de nossxs irmãos e irmãs negrxs, esta é uma luta nossa!




E por favor, não tente deslegitimar a nossa causa. Não tente silenciar ou diminuir um (a) pretx, que exalta sua própria beleza e qualidades. Afinal, se ele não o fizer, quem o fará? Já não basta as diversas dores e exclusão às quais fomos submetidos? É vez de nós, bichas pretas, mostrarmos quem somos e o que sentimos.  

Esse texto vai para meu querido leitor F e todos aqueles, que assim como nós, já se sentiram ou perceberam a exclusão vivida por gays negros. E não se esqueça: VOCÊ É MAIS, VOCÊ É MARAVILHOSO! Força para todos nós!

Gustavo Dias

blogger, designer, escritor...

5 comentários:

  1. Guto! Amei o seu texto.. já quero te seguir.. não tenho palavras para dizer o quanto seu texto me fez olhar para o meu interior e com mais carinho para as pessoas a minha volta. Tudo que vc disse eh verdade, e você argumenta muitíssimo bem. Foi um prazer conhecer seu blog e foi um prazer conhecer você! Bjo! Thata

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  2. Guto! Amei o seu texto.. já quero te seguir.. não tenho palavras para dizer o quanto seu texto me fez olhar para o meu interior e com mais carinho para as pessoas a minha volta. Tudo que vc disse eh verdade, e você argumenta muitíssimo bem. Foi um prazer conhecer seu blog e foi um prazer conhecer você! Bjo! Thata

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  3. Parabéns pelo texto Guto. Você arrasa! <3

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  4. Amei,Tudo O Que eu sinto me descreveu estou até chorando paraéns.

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