Meu processo de empoderamento e aceitação enquanto negro




Há quase um ano atrás eu começava minha transição capilar. Por quatro longos anos sempre alisei meus fios. Antes de começar a alisar, nunca tinha me sentido como uma pessoa de verdade. Por muito tempo não conhecia minha verdadeira identidade.

Desde criança, sempre ouvi insultos dos meus colegas de classe, por ter o cabelo crespo e aparência black power. Por diversas vezes, faziam rodas para me zoar e chamar de assolam, cabelo de palha e muitos outros – que felizmente já não me lembro. E mesmo que eu falasse à diretoria da escola, nada mudava. Apenas diziam que era coisa da idade e bullying era muito comum nessa faixa etária. 

Ao ir para o ensino médio, as coisas pareciam ter melhorado. Não havia mais zoação ou perseguição pelo meu cabelo. Todavia, ainda não me sentia parte da turma, nunca me senti satisfeito com minha aparência. Talvez fossem as marcas das brincadeiras de mal gosto, possivelmente a falta de representatividade ou por minha família nunca tocar no assunto comigo. Afinal, de quem poderia ser a culpa? 

Foi então que, para me sentir bem, comecei a alisar meu cabelo ou raspa-lo. Tudo, definitivamente, estava resolvido. Me sentia pertencente ao meu grupo de amigos. Era “igual” aos outros.

O tempo passou e aquilo começou a não fazer mais sentido. Não me satisfazia e comecei a perceber que havia algo errado. Notei que durante todo esse tempo, mesmo me sentindo bem, tinha perdido minha identidade – na verdade, nunca soube qual era ela de fato. O problema não era alisar o cabelo, não havia nada de errado nisto. Contudo, estava fazendo aquilo para me sentir parte integrante da sociedade, não enxergava que se resumia apenas em seguir um padrão que a sociedade, por muitos anos, (em)pregava. 

Me dei conta que nunca tinha me aceitado como preto. Estava preso a estereótipos que, ao longo do meu amadurecimento enquanto pessoa, foram ditados a mim. Pela mídia, pelos meus colegas e pela minha família. E tinha aquilo como verdade absoluta. 

Os negros (assim descritos nos livros), sempre foram colocados apenas como escravos, afinal, esta foi a ‘função’ deles no Brasil – assim como também, dos índios. Mas nunca tomei conhecimento (em sala de aula ou televisão), que eles também foram poderosos e reinaram por anos no antigo Egito. Nas novelas, nunca tiveram um papel como protagonista. Foi esta a realidade que vivi durante minha infância e adolescência.

Aceitar meu cabelo foi minha porta de entrada para me aceitar enquanto ser humano preto. Tomar ciência do quão importante era assumir minhas raízes e características, fazia parte de um processo de autodesconstrução. Um progresso que parte de dentro para fora. E é disto que se trata o empoderamento, conscientizar-se e dar-se conta do seu poder. Reconhecer que você é capaz de ser autor da sua própria história e lutar pelos direitos, não somente seus, mas do grupo. 


“Empoderamento é singular e é plural. Singular no sentido de que é um processo individual e pode ocorrer pelas mais diferentes motivações. Plural porque por meio do empoderamento aprendemos que a luta é coletiva, em prol d@s irmãs e irmãos.”


Porém, vai além de estética. Uma roupa maneira e o black assumido não faz de você um empoderado ou mais negro que o seu irmão. É perceber a dimensão, política e social, que está representada em se aceitar e assumir o seu cabelo natural. Que, mesmo vivendo em uma sociedade ‘evoluída’ e do conhecimento, existe racismo, que somos discriminados por nossos fenótipos e combate-lo diariamente.  Perceber que os seus traços, a sua cor de pele e o seu cabelo são lindos também é se empoderar. Mas empoderamento não é só isso e ser natural não é a única porta de entrada, embora tenha sido a motivação de várias pessoas, inclusive a minha.

Empoderar-se é tomar consciência que a sociedade precisa de mudança, participar de ações coletivas, perceber sua importância para o coletivo, é (r)existir. Estamos juntos nessa e, somente assim, poderemos ser livres.