Noite de estrelas


Não me dei conta de como dia passou ligeiramente depressa.

Já era tarde, e mesmo tendo que levantar cedo no dia seguinte, me encontrava na varanda. Havia terminado uma ligação e logo após minha playlist aleatória voltou a tocar. Resolvi permanecer ali por mais um tempo.

Fitei o céu. Busquei pela lua, mas não consegui encontra-la, não estava ao alcance da minha visão ou simplesmente não estava ali. Apesar disto, a imensidão escura estava tomada uma infinidade de estrelas, que em perfeita harmonia iluminavam aquela noite.
O brilho das constelações me hipnotizou, aquele era um dos poucos detalhes perceptíveis a olho nu, e eu tinha plena ciência que forças físicas muito maiores formavam aqueles astros, assim como também aquele brilho.

Apesar de tantas estrelas, a lua é única – pensei. Aquilo me lembrava a história um amor passado, estremeci. Tentei não me abalar. Apesar de paixões e romances temporários, apenas uma pessoa foi quem realmente amei. Um vazio me preencheu, pois não importava quantas estrelas tentassem iluminar meu coração, nenhuma poderia clarear cada canto dele assim como a lua o faria. Estrelas morrem e outras nascem, mas a lua está sempre ali em algum lugar, mesmo que não seja possível vê-la.

Volto a me questionar, onde é que você estaria? Havia um silêncio e um vazio em mim. Sem deixar qualquer sinal, houve um dia em se foi. Como se por um instante tivesse se transformado em um estrela cadente, que passou rapidamente e os rastros foram sumindo gradativamente até desaparecem por completo.

Jurei pra mim que se não fosse você, meu mundo não teria outra lua. Nenhum outro astro poderia tomar seu lugar. Mas sem você meu mundo seria totalmente escuro. Não importa quantos anos se passem, quantas fases a lua tenha, seu amor terá sido o único.

A música acabou e voltei daquela viagem no tempo

Uma volta no parque


Já havia amanhecido quando levantei para ir à cozinha. Verifiquei a sala e me deparei com resquícios de uma noite badalada, e nos quartos todos ainda dormiam como crianças. Olhei meu reflexo no espelho do corredor, não estava tão mal. Dirigi-me para a cama novamente, deitando cuidadosamente ao lado dele, que dormia com um ar serene, como se aquele momento não tivesse fim. Reclino-me ao seu lado, envolvendo meu braço em seu corpo e então fecho meu olho.
Ao contrário do que pensava, ele já estava acordado, então se vira para mim, dando um beijo em meu rosto. Passo a mão em seus cabelos negros e olho em seus olhos, me transmitem paz e conforto.
— Bom dia. Dormiu bem? - pergunto instintivamente.
— Sim e você? - ele responde imediatamente, me segurando pela mão.
— Está tudo bem?
— Não, na verdade. Recebi uma mensagem. Era minha mãe me avisando sobre o almoço em família e pediu para estar em casa na hora do almoço.

Ok. E agora? Foi tudo que passou pela minha cabeça. Havíamos planejado passar a manhã juntos e em seguida levá-lo à rodoviária. Penso por alguns segundos antes de respondê-lo.
— Melhor nos apressarmos senão terá problemas.
— Tudo bem, temos algum tempo. - Estas palavras me deixaram mais aliviado.
— Tem certeza?
— Sim.
— Acho que vou me banhar, aproveite para juntar suas coisas.
— O.K. O farei.
Apressei-me e tomei uma rápida ducha. Logo após sair do banheiro, ele fez o mesmo.
Sem nos despedirmos de ninguém, nos apressamos para sair. Enquanto esperávamos o elevador, me viro para ele e o observo por alguns instantes. E apesar do inesperado, sua expressão não demonstrava desespero ou preocupação. Como resposta ao meu olhar, ele sorri. O elevador se abre a nossa frente deixo que entre primeiro. Damo-nos conta que não fizemos o desjejum, então sugiro de irmos à padaria que fica a dois quarteirões do prédio.

Rapidamente chegamos à padaria, aonde já havia muitas pessoas tomando café da manhã.

— Você precisa comprar a ficha antes. - Informo a ele.
— Hm. Certo. Acho que vou querer uma coxinha e Coca-Cola.
— Eu fico com pão de queijo e uma Coca-Cola.

Compramos nossas fichas. Enquanto faço nossos pedidos, ele se dirige para uma mesa vazia. Sento-me de frente e estendo a mão entregando a lata de refrigerante. Após nos alimentarmos estamos mais dispostos, aproveitamos para decidir o que fazer antes de seguir para a rodoviária. Descemos a rua e seguimos pela avenida que se encontrava tomada por pessoas fazendo compras na feira.
— Quero um colar de âncora. - Ele disse. Então caminhamos próximo às barracas, olhando para ver se encontrávamos algo.
Sem sucesso em nossa busca chegamos à porta do parque. Pergunto-lhe se gostaria de entrar e ele assente com a cabeça afirmando que sim.
Entramos e seguimos por uma pequena trilha sem rumo.
— Para onde vamos? - Pergunta-me curioso.
— Tem um lugar bonito para tirar fotos aqui. - Digo sem dar detalhes.
— Apesar de ser no meio da cidade, o parque para mais extenso por dentro do que por fora. Há muito que ver e fazer por aqui. O teatro, os lagos, o coreto, os brinquedos de diversão, a parte de lazer e centenas de árvores.
— Parece incrível, gostaria de ter mais tempo para conhecê-lo por inteiro.
— Haverá outra oportunidade. - Digo sugestivamente.
— Assim espero.

Ao final da trilha chegamos à beira de um dos lagos. Haviam poucas pessoas por ali, mas era notória a presença de alguns casais. Sentamos na grama próximo a uma árvore e tiramos algumas fotos. Estas que deixariam aquele momento registrado. E apesar de estarmos correndo contra o tempo, parecia que o relógio havia parado e nos deixado eternizar aquele momento. Éramos apenas ele e eu.
Onde estivera este tempo todo? E o que teria o trago até mim? Pergunto-me. E sem chegar a uma conclusão, me volto a ele. Seu cabelo caia levemente sobre seu rosto, os óculos escondiam seu olhar. O sorriso discreto em seu rosto parecia demonstrar que não nada lhe preocupava e queria ficar ali por um longo tempo.

— Ei. - chamo por sua atenção. — Temos que ir, já deve estar próximo de sair outro ônibus.
— Vamos, mas antes quero ir à ponte. - Em formato côncavo, a ponte leve a uma pequena ilha no meio do lado. Observamos o parque por mais um momento e aproveito para tirar mais algumas fotos dele. Logo em seguida o acompanho ao descer a ponte, se encaminhando para o coreto e digo que a saída fica logo à frente.

Voltamos para a avenida. Em questão de minutos estaríamos na rodoviária. Caminhávamos silenciosamente quando passamos em frente a uma loja de doces. Volto à porta e entro, escolho alguns bombons, pago e logo estamos de volta ao nosso destino.
— São pra você. - Entrego-lhe o embrulho com os bombons.
— Sério? Obrigado. Você é um amor.
— São pra adoçar sua viagem de volta. - Respondo sem graça.
— Escolha um, faço questão. - Ele insiste. Recuso algumas vezes, mas acabo pegando um.

Passamos pela Praça Sete e em questão de minutos chegamos ao guichê da rodoviária para comprar a passagem. O próximo ônibus sairia em trinta minutos. Compramos e descemos para a plataforma de embarque.

— Obrigado por ter vindo. - Agradeço.
— Obrigado digo eu. Foi bom ter vindo para cá, a noite passada foi incrível e divertida. É uma pena ter que ir tão cedo, queria ter aproveitado mais. - Ele responde aliviado.
— Sabe que se quiser voltar será sempre bem-vindo. Estarei sempre aqui.
— Nem sei como agradecer pelos últimos dias. Toda força e atenção que tem me dado estão sendo de grande ajuda. Obrigado, de verdade.

Passo uma mão por sua cintura e com a outra acaricio seus cabelos. Ele encosta o queixo em meu ombro. Abraçamo-nos demoradamente. Faltavam poucos minutos para o ônibus dar a partida. Finalmente nos demos que era chegada a hora de nos despedirmos. Adeus ou até logo? Talvez fosse cedo demais para ter certeza, era o começo de algo que ainda não sabíamos bem o que era. Demos um demorado beijo e ele seguiu para a porta do ônibus. Aceno me despedindo e ele acena de volta.

Enquanto me olha fixamente, adentro seu olhar. Meu mundo parou. Seria possível um amor eterno e sem fim num encontro assim? Será que o encontraria novamente pela cidade? Será que o tocaria novamente? Será que voltaria a falar em seu ouvido outra noite? Muitas perguntas que precisavam de respostas, mas que só surgiriam com o tempo. Como uma tempestade perfeita ele veio e deixou um arco-íris no meu céu. Nós havíamos criado nosso país das maravilhas. Bastou apenas um olhar para não esquecer. A distância não perdurará, o tempo o trará de volta.

Ciclo de um novo ano


Sonhos, desejos, vontades, anseios, medos e aquele turbilhão de sentimentos que mais parecem borboletas na barriga. O relógio já aponta que faltam poucos segundos para meia-noite e mais um ano já está à espera para começar.  Os fogos refletem nos olhos a esperança um recomeço de uma vida que segue dia pós dia sem parar. Depois da virada a vida continua. Preces, pedidos, oferendas, pular setes ondas, superstições e crenças em busca de boas energias. Longas listas de metas são feitas, mas aos poucos são deixadas de lado. Ano pós ano a vida vai sendo tecida vagarosamente com pequenos pedaços do passado. Cada dia é uma nova oportunidade de fazer o seu melhor.  Cada ciclo de 365 ou 366 é parte de uma grande missão na terra.