Uma volta no parque


Já havia amanhecido quando levantei para ir à cozinha. Verifiquei a sala e me deparei com resquícios de uma noite badalada, e nos quartos todos ainda dormiam como crianças. Olhei meu reflexo no espelho do corredor, não estava tão mal. Dirigi-me para a cama novamente, deitando cuidadosamente ao lado dele, que dormia com um ar serene, como se aquele momento não tivesse fim. Reclino-me ao seu lado, envolvendo meu braço em seu corpo e então fecho meu olho.
Ao contrário do que pensava, ele já estava acordado, então se vira para mim, dando um beijo em meu rosto. Passo a mão em seus cabelos negros e olho em seus olhos, me transmitem paz e conforto.
— Bom dia. Dormiu bem? - pergunto instintivamente.
— Sim e você? - ele responde imediatamente, me segurando pela mão.
— Está tudo bem?
— Não, na verdade. Recebi uma mensagem. Era minha mãe me avisando sobre o almoço em família e pediu para estar em casa na hora do almoço.

Ok. E agora? Foi tudo que passou pela minha cabeça. Havíamos planejado passar a manhã juntos e em seguida levá-lo à rodoviária. Penso por alguns segundos antes de respondê-lo.
— Melhor nos apressarmos senão terá problemas.
— Tudo bem, temos algum tempo. - Estas palavras me deixaram mais aliviado.
— Tem certeza?
— Sim.
— Acho que vou me banhar, aproveite para juntar suas coisas.
— O.K. O farei.
Apressei-me e tomei uma rápida ducha. Logo após sair do banheiro, ele fez o mesmo.
Sem nos despedirmos de ninguém, nos apressamos para sair. Enquanto esperávamos o elevador, me viro para ele e o observo por alguns instantes. E apesar do inesperado, sua expressão não demonstrava desespero ou preocupação. Como resposta ao meu olhar, ele sorri. O elevador se abre a nossa frente deixo que entre primeiro. Damo-nos conta que não fizemos o desjejum, então sugiro de irmos à padaria que fica a dois quarteirões do prédio.

Rapidamente chegamos à padaria, aonde já havia muitas pessoas tomando café da manhã.

— Você precisa comprar a ficha antes. - Informo a ele.
— Hm. Certo. Acho que vou querer uma coxinha e Coca-Cola.
— Eu fico com pão de queijo e uma Coca-Cola.

Compramos nossas fichas. Enquanto faço nossos pedidos, ele se dirige para uma mesa vazia. Sento-me de frente e estendo a mão entregando a lata de refrigerante. Após nos alimentarmos estamos mais dispostos, aproveitamos para decidir o que fazer antes de seguir para a rodoviária. Descemos a rua e seguimos pela avenida que se encontrava tomada por pessoas fazendo compras na feira.
— Quero um colar de âncora. - Ele disse. Então caminhamos próximo às barracas, olhando para ver se encontrávamos algo.
Sem sucesso em nossa busca chegamos à porta do parque. Pergunto-lhe se gostaria de entrar e ele assente com a cabeça afirmando que sim.
Entramos e seguimos por uma pequena trilha sem rumo.
— Para onde vamos? - Pergunta-me curioso.
— Tem um lugar bonito para tirar fotos aqui. - Digo sem dar detalhes.
— Apesar de ser no meio da cidade, o parque para mais extenso por dentro do que por fora. Há muito que ver e fazer por aqui. O teatro, os lagos, o coreto, os brinquedos de diversão, a parte de lazer e centenas de árvores.
— Parece incrível, gostaria de ter mais tempo para conhecê-lo por inteiro.
— Haverá outra oportunidade. - Digo sugestivamente.
— Assim espero.

Ao final da trilha chegamos à beira de um dos lagos. Haviam poucas pessoas por ali, mas era notória a presença de alguns casais. Sentamos na grama próximo a uma árvore e tiramos algumas fotos. Estas que deixariam aquele momento registrado. E apesar de estarmos correndo contra o tempo, parecia que o relógio havia parado e nos deixado eternizar aquele momento. Éramos apenas ele e eu.
Onde estivera este tempo todo? E o que teria o trago até mim? Pergunto-me. E sem chegar a uma conclusão, me volto a ele. Seu cabelo caia levemente sobre seu rosto, os óculos escondiam seu olhar. O sorriso discreto em seu rosto parecia demonstrar que não nada lhe preocupava e queria ficar ali por um longo tempo.

— Ei. - chamo por sua atenção. — Temos que ir, já deve estar próximo de sair outro ônibus.
— Vamos, mas antes quero ir à ponte. - Em formato côncavo, a ponte leve a uma pequena ilha no meio do lado. Observamos o parque por mais um momento e aproveito para tirar mais algumas fotos dele. Logo em seguida o acompanho ao descer a ponte, se encaminhando para o coreto e digo que a saída fica logo à frente.

Voltamos para a avenida. Em questão de minutos estaríamos na rodoviária. Caminhávamos silenciosamente quando passamos em frente a uma loja de doces. Volto à porta e entro, escolho alguns bombons, pago e logo estamos de volta ao nosso destino.
— São pra você. - Entrego-lhe o embrulho com os bombons.
— Sério? Obrigado. Você é um amor.
— São pra adoçar sua viagem de volta. - Respondo sem graça.
— Escolha um, faço questão. - Ele insiste. Recuso algumas vezes, mas acabo pegando um.

Passamos pela Praça Sete e em questão de minutos chegamos ao guichê da rodoviária para comprar a passagem. O próximo ônibus sairia em trinta minutos. Compramos e descemos para a plataforma de embarque.

— Obrigado por ter vindo. - Agradeço.
— Obrigado digo eu. Foi bom ter vindo para cá, a noite passada foi incrível e divertida. É uma pena ter que ir tão cedo, queria ter aproveitado mais. - Ele responde aliviado.
— Sabe que se quiser voltar será sempre bem-vindo. Estarei sempre aqui.
— Nem sei como agradecer pelos últimos dias. Toda força e atenção que tem me dado estão sendo de grande ajuda. Obrigado, de verdade.

Passo uma mão por sua cintura e com a outra acaricio seus cabelos. Ele encosta o queixo em meu ombro. Abraçamo-nos demoradamente. Faltavam poucos minutos para o ônibus dar a partida. Finalmente nos demos que era chegada a hora de nos despedirmos. Adeus ou até logo? Talvez fosse cedo demais para ter certeza, era o começo de algo que ainda não sabíamos bem o que era. Demos um demorado beijo e ele seguiu para a porta do ônibus. Aceno me despedindo e ele acena de volta.

Enquanto me olha fixamente, adentro seu olhar. Meu mundo parou. Seria possível um amor eterno e sem fim num encontro assim? Será que o encontraria novamente pela cidade? Será que o tocaria novamente? Será que voltaria a falar em seu ouvido outra noite? Muitas perguntas que precisavam de respostas, mas que só surgiriam com o tempo. Como uma tempestade perfeita ele veio e deixou um arco-íris no meu céu. Nós havíamos criado nosso país das maravilhas. Bastou apenas um olhar para não esquecer. A distância não perdurará, o tempo o trará de volta.

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