LGBTfobia e o medo de cada dia


Certa vez, conversando com um amigo sobre medos, disse a ele que um dos meus maiores era de sair de casa e ser vítima de agressão, simplesmente por ser gay. Refleti várias vezes sobre isto e sempre dizia a mim mesmo que não deveria ter medo de ser quem sou, afinal não há nada de errado comigo.

Verdade. Não há nada de errado em ser LGBT. Não é errado amar alguém do mesmo sexo ou aceitar sua verdadeira identidade de gênero. Mas por que esse medo?

Desde pequeno, sempre que havia um gay ou lésbica numa novela ou, até mesmo na rua, o olhar das pessoas era de reprovação. O uso da palavra gay, normalmente era em tom pejorativo. Me lembro bem, quando na 2ª série, pedi para minha mãe que me comprasse uma mochila da novela Chiquititas. Sem dó nem piedade, colegas de classe diziam: QUE MOCHILA SUPERGAY. E desde então, o medo de dizer ser gay, já estava se instaurando em mim.

O que quero dizer é: por que crianças, de oito anos de idade, já julgam um LGBT, sem mesmo saber o que é? Ninguém nasce homofóbico, portanto isso é  ensinado, direta ou indiretamente às pessoas.

Infelizmente, existem pessoas intolerantes de mente pequena por toda parte, e elas adoram que você fique sabendo o quão idiota elas são. Dizem que este é um país livre e podem dizer o que quiserem. Mas a verdade é que não é bem assim. Incitação ao ódio é crime.

Diariamente, pessoas LGBTs são insultadas com gírias maldosas, ofensivas, mal informadas e violentas. Poderia listar aqui, várias palavras que são usadas para nos depreciar, mas não vale a pena. Não importa quais sejam, sempre haverá palavras brutais para tentar baixar a bola das minorias. Isto quando não somos violentados ou mortos.

É isto que a LGBTfobia faz com os jovens: MATA. Por mais que sejamos impermeáveis a ofensas, acredito que você LGBT já pensou 'isto não vai ser fácil'. E não é. Nunca. Embora talvez estejamos felizes porque nos descobrimos e talvez tenhamos pais ou outras pessoas que nos dão todo o apoio do universo, todos nós sabemos que estamos nos expondo a um mundo repleto de ódio.

Mas é essa adversidade que fortalece uma pessoa LGBT. É por isto que fizemos que temos orgulho. Se você é capaz de reconhecer quanto ódio existe no mundo e ainda assim se assumir como LGBT, você é uma pessoa guerreira.

Pessoas LGBT são fortes. Porque temos que ser.

17 de maio - Dia Internacional Contra a LGBTfobia.

Querida pessoa branca, a série "cara gente branca" não é sobre você


Cara gente branca, aqui vai uma série de motivos, pelos quais, você não deve se sentir ofendido com a série “Cara gente branca”. Até porque, ela não é sobre você, e sim sobre meus irmãos e irmãs negrxs.

Algumas pessoas já perceberam que Cara gente branca, não teve a mesma repercussão que 13 reasons why. Só daí, percebemos o quanto as pessoas se comovem e preocupam mais com determinados assuntos, e ignoram outros, tão importante quanto. Dessa mesma maneira os meios de comunicação. Mas o meu objetivo aqui é outro.



Há algumas semanas, a Netflix lançou uma série chamada “Dear white people”, Cara gente branca, aqui no Brasil. O que causou grande revolta nos EUA, onde usuários ameaçaram e cancelaram suas assinaturas na plataforma. Por que será, que uma série com protagonistas negros e, aparentemente, um título que dá a intenção de falar mal de pessoas brancas causa tanto incômodo? Se fosse um protagonista branco, com negro em segundo plano, estaria tudo ok?

Apesar da série começar com um estopim, causado pelo uso de “black face” em uma festa, a narrativa tem como carro de frente, os membros fraternidade negra da faculdade Winchester, e gira em torno de dilemas vividos por esses estudantes e maneira como eles lidam com as questões sobre racismo e preconceito. 


Pessoas negras tão plurais e distintas



A realidade é que nosso mundo é composto por pessoas negras também, beleza? Elas também ocupam espaços e tem voz. Deixe que elas falem. Pessoas negras tão plurais e distintas, com vivências e experiências diferentes. E é isto que Cara gente branca retrata.

Cada indivíduo é tão único, com particularidades. A partir disso, mostra como se dão as relações na comunidade negra, apresenta o negro em sua pluralidade. Pluralidade esta, que vai desde o tom de pele (colorismo) até as ideologias. Que a  negritude não é vivida de uma só maneira. São as mais diversas formas de experiência e postura de combate ao racismo. Logo,  as nossas posições no movimento negro não são as mesmas.


Humanização da existência negra



São por estas, e outras questões, que Cara gente branca não julga as pessoas brancas ou lhes aponta o dedo para suas atitudes racistas, ainda que fale sobre isso de uma maneira sarcástica. Ao meu ver, a série tem o objetivo de humanização do ser negro. Desmistifica que todos nós somos iguais e que estamos sempre na defensiva.

Uma abordagem sobre a personagem Coco, que me chamou muita atenção, é a maneira como a apresentaram e, aos poucos, foram desvendando o porque dela agir e ter tais atitudes diante o movimento. O que exemplifica de maneira clara, como um indivíduo tem sua identidade construída através de suas vivências, experiências e pelo o meio que o cerca. Falei sobre isto no meu texto “meu processo de empoderamento”, sobre a falta de representatividade e que, após muito tempo, fui reconhecendo meus traços e me aceitei como pessoa negra.


“ser despreocupado e negro, é um ato de revolução.”


Os personagens em suas diversas nuances, dotados de emoções e expectativas, se mostram, muitas vezes, divergentes em suas posições dentro do movimento negro. Existem aqueles que lutam veemente por suas ideologias, estão sempre na linha de frente e parecem nunca se cansar. Assim bem como, aqueles que são mais na sua,  não possuem voz ativa, os que na série dizem ser os que estão dormindo. Mas, a maneira como isso é trabalhada na série, nos diz que “ser despreocupado e negro, é um ato de revolução.” E acredito eu que sim, pois, o simples fato de nós existirmos, já é uma luta, é resistir.

Além dos assuntos relatados acima, a série aborda uma série de temas, que precisam ser debatidos dia após dia, que parecem irrelevantes, mas fazem parte da vivência do negro. Seguem algumas:

  • Colorismo
  • Coação policial
  • Pluralidade negra
  • Hipersexualização
  • Homossexualidade negra
  • Genocídio
  • Solidão da mulher negra
  • Relacionamento interracial
  • Masculinidade negra


Nós, negros, somos humanos, temos nossas dores e ainda precisamos lutar para conquistarmos nosso espaço no meio em que vivemos. O racismo é real, e está velado em nossa sociedade. Pequenos atos e dizeres, podem sim, nos atingir. Apropriação cultural faz com que nossa história perca seu valor. Piadas que façam chacota com nossa raça faz parecer que não somos nada. Mas falar sobre o que incomoda os negros, incomoda os brancos. Querida pessoa branca, não assista série como se fosse uma ofensa a você, até porque ela não é. E querida pessoa negra, não se cale, mostre quem você é e que você é um ser humano que merece seu lugar na sociedade.

A solidão da bicha preta




Olá querido (a) leitor (a). Sou eu, Devonne, de volta com mais um texto que reflete um pouco sobre a realidade de algumas pessoas. Como pode ter reparado, o título é bastante claro (diga-se de passagem, obscuro), ainda que não seja visível para as pessoas ao nosso redor. 

Um leitor, que aqui irei identificá-lo como F, me enviou um relato acompanhado de um pedido, para que escrevesse um texto abordando este tema.
 
Em sua mensagem, F me contou que ao ir em uma festa LGBTTQ+, pode perceber certo desconforto ao se lembrar do trecho: “ser inteligente, gostar de estudar e ter planos para o meu futuro não era o suficiente, não para outros gays, não para ser parceiro de alguém... “, presente em meu texto “Ser negro e gay: dois pesos diferentes” e como aquilo o fez refletir sobre, especificamente, como caras gays se relacionam ou simplesmente escolhem seus casos de uma noite de balada. 

Preciso afunilar mais a situação para chegar a problemática em questão: quanto um cara negro gay, precisa provar que é suficiente para outro cara? A verdade é que ele não precisa provar nada. Mas, se tratando de uma sociedade baseada em 'esse é meu gosto', esse cara estará sempre a prova de ser bom o bastante ou não para as pessoas.

Me lembro das diversas vezes que, ao ir para uma boate ou festa com os meus amigos, eu era a última ou, até mesmo, nem era a opção de alguém. Isso tudo porque eu não fazia “o tipo deles”. Por estas e outras situações, sempre passava horas me olhando no espelho, perguntando se havia algo de errado em mim. 


 “Sou rejeitado pelo brancos por ser negro, pelos negros por ser gay e pelos gays por ser afeminado” - RuPaul.


Vivemos num país que, mesmo miscigenado, sempre esteve preso a um estereotipo da beleza euro centrada, ditada como um padrão ideal de ser, assim bem como, de busca por um parceiro que assim o seja. É por isso, meu caro leitor, que quando digo: o nosso “gosto pessoal” é construção social, não deixo de reafirmar que baseamos nossos desejos naquilo que nos é apresentado diariamente, seja nas revistas, televisão, nos filmes e até na internet.

"É, ela não tem do que reclamar, afinal, está rodeada de pessoas - mas a realidade é que ela é a menos desejada."

 

Ah, a bicha preta efeminada. Caricata, engraçada e querida por todos – quando está fazendo uma piada e sendo o centro das atenções. É, ela não tem do que reclamar, afinal, está rodeada de pessoas - mas a realidade é que ela é a menos desejada. Não é de hoje que essa zombação mascarada de brincadeira, está presente a vida do cara negro gay. Nos anos 90, o Brasil já ria da figura da bicha preta, interpretada pelo Jorge Lafond, no programa A Praça é Nossa.

Quem não se lembra da querida Layla Dominique? Que Deus a tenha. Preta, feia e engraçada, se tornou um viral nacional, vítima da zombaria na internet. Será que são necessários mais exemplos de como o gay negro efeminado é visto pela sociedade?

Mas ah, deixa de besteira, já fiquei com gays negros. Hipoteticamente falando, quais os motivos já te levaram a ficar com um gay negro? Pensou? Agora, como poderiam os gays negro serem desprezados? Afinal, quem não gosta de um negão? 

É aí que você se engana. O nosso clamor como negros e gays, vai muito além da objetificação do corpo. 

 



Gays negros são em sua grande maioria os mais pobres, os mais caricatos e os menos desejados. Sem contar quando são gordos ou magros demais e principalmente os afeminados! Quantos de nós não fomos chamados de Vera Verão, Bicha Louca e Neguinha? – Tudo em tom de deboche.

Esses são, sem dúvida, os que mais sofrem com a solidão e a desvalorização presente em nossa sociedade. Ora por outros grupos étnicos ou sociais, outrora por seus irmãos negros. Por não ser másculo o suficiente, a sua dor enquanto negro e gay, é praticamente silenciada pelo movimento, gerando uma grande falta de empatia. 

NINGUÉM QUER A BICHA PRETA! 


A verdade que choca e causa espanto é essa: ninguém quer a bicha preta. A menos que seja para uma transa casual, no sigilo. Não é mimimi ou vitimismo, é a pura verdade. Nenhum cara quer ser visto com outro negro por aí, apresentar para os amigos ou, até mesmo, para a família. Não importa o quanto ele mostre que é inteligente, companheiro e até bonito, será sempre a segunda opção, simplesmente por não ser padrão

Desde de criança, precisamos lutar contra nossos trejeitos, pois, se não tivermos um jeito mais masculino, facilmente viramos alvo de piadas. Nós bichas pretas, lutamos contra racismo, homofobia, hipersexualização e uma série de preconceitos pessoais, que acaba por destruir nossa autoestima. 

Durante a nossa construção como seres integrantes dessa sociedade, passamos parte de nossas vidas cercados de traumas, como se fossemos lixo, um nada. Ainda assim, precisamos buscar aquela força escondida, quase aniquilada por todas as opressões, para continuar vivendo e ter um mínimo de autoestima para sair sem ter medo de sermos nós mesmos. Se sentir assim é muito frustrante, triste e doloroso.
 

Por sorte, alguns de nós amadurecemos e percebemos o quanto estamos presos em um sistema e tentamos alertar nossos irmãos – e toda a sociedade; mas só ouve quem quer. Dia após dia, o silêncio tem sido quebrado e, felizmente, pessoas como Liniker, Rico Dalasam e Mc Linn, tem ajudado a dar voz ao movimento, levando o empoderamento para o mundo através da arte, debates e redes sociais. 

O empoderamento negro é uma luta diária. Não é puro narcisismo. É resistir, é afrontar, é cultivar um amor que nunca foi lhe oferecido. A solidão da bicha preta existe e perdura por décadas. Precisamos da empatia de nossxs irmãos e irmãs negrxs, esta é uma luta nossa!




E por favor, não tente deslegitimar a nossa causa. Não tente silenciar ou diminuir um (a) pretx, que exalta sua própria beleza e qualidades. Afinal, se ele não o fizer, quem o fará? Já não basta as diversas dores e exclusão às quais fomos submetidos? É vez de nós, bichas pretas, mostrarmos quem somos e o que sentimos.  

Esse texto vai para meu querido leitor F e todos aqueles, que assim como nós, já se sentiram ou perceberam a exclusão vivida por gays negros. E não se esqueça: VOCÊ É MAIS, VOCÊ É MARAVILHOSO! Força para todos nós!